Primeiro Clube de Leitura LGBTI+ de Ensino Médio da Bahia recebe doação de livros e apoio de coletivo de escritores

Iniciativa desenvolvida no Colégio Estadual de Tempo Integral Professor Eduardo Bahiana, em Salvador, recebeu obras de autoria LGBTI+ durante a Flipelô; ação fortalece a formação de leitores, a representatividade e a diversidade na escola pública

Por Gabriela Kopinits

O primeiro Clube de Leitura LGBTI+ de Ensino Médio da Bahia, criado no Colégio Estadual de Tempo Integral Professor Eduardo Bahiana, em Cajazeiras, Salvador, ganhou novos aliados e novos livros para ampliar seu acervo. O Clube de Leitura LGBTI+ Independente da Bahia realizou a doação de obras de autoria LGBTI+ à iniciativa, fortalecendo uma ação que leva literatura, representatividade e espaços de diálogo para estudantes da rede pública estadual.

A entrega dos livros aconteceu durante a 10ª Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), realizada entre os dias 5 e 9 de agosto, no Centro Histórico de Salvador. As obras foram doadas pelas pessoas autoras que participaram da programação do Clube de Leitura LGBTI+ Independente da Bahia no evento e agora passam a integrar o acervo disponível aos estudantes.

Mais do que uma doação pontual, a ação marca a aproximação entre os dois clubes e o apoio do coletivo baiano à iniciativa desenvolvida dentro da escola pública. O objetivo é contribuir para a formação de leitores e ampliar o acesso de adolescentes a obras nas quais diferentes identidades, afetos, experiências e formas de existir possam ocupar o centro das narrativas.

A professora Elaine Santiago, responsável pelo Clube de Leitura LGBTI+ do Colégio Estadual de Tempo Integral Professor Eduardo Bahiana, também integra o Clube de Leitura LGBTI+ Independente da Bahia, fortalecendo a conexão entre as duas iniciativas e a construção de ações que aproximem literatura, educação e diversidade.

Para Elaine, a participação na Flipelô e o recebimento das obras representam um incentivo importante para a continuidade do trabalho desenvolvido com os estudantes.

“Participar da mesa sobre Educação e Currículo na Flipelô, representando o Clube de Leitura LGBTI+ da escola pública onde leciono, renovou minha esperança e me deu ainda mais coragem para seguir adiante. Somos profundamente gratos pelos exemplares que recebemos. Eles já chegam enriquecendo nosso acervo e prometem movimentar novas leituras, novos olhares e novos afetos dentro da escola”, afirma a professora.

Livros como ponte entre a literatura e a escola pública

O Clube de Leitura LGBTI+ Independente da Bahia é um projeto de extensão coordenado pelo professor Dr. Nilton Milanez, da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), e integra o Clube de Leitura LGBTI+ Nacional, filiado à Aliança Nacional LGBTI+.

Para Milanez, que também coordena o Clube de Leitura LGBTI+ Nacional, fazer com que os livros cheguem aos jovens leitores é parte essencial da proposta de democratização da literatura e de ampliação dos espaços de representação.

“Nossa participação na Flipelô mostra que a literatura LGBTI+ ocupa, cada vez mais, espaços de diálogo, produção de conhecimento e transformação social. Encerrar essa experiência contribuindo para a criação do acervo de um clube de leitura em uma escola pública simboliza exatamente aquilo em que acreditamos: livros mudam vidas quando encontram leitores”, destaca.

A doação ocorreu na culminância das atividades do Clube de Leitura LGBTI+ Independente da Bahia na programação oficial da Flipelô, dentro do “Ocupa Pelô Literário”, iniciativa que teve a curadoria da escritora e produtora cultural Tati Gonçalves, do projeto Palavra-Borboleta.

Entre as atividades realizadas estiveram contação de histórias, encontros com pessoas autoras, exposição e venda de livros e debates sobre literatura, educação e diversidade. No sábado (8), a programação contou com o bate-papo “O Corpo como Voz: Escritas Gay, Não Binária e Travesti”, mediado pela escritora e jornalista Gabriela Kopinits, e com a mesa “Currículo, Censura e Coragem: a Palavra LGBT+ na Educação”, mediada pelo escritor e professor Lecco França.

Foi justamente nesse encontro entre literatura e educação que a experiência desenvolvida no Colégio Eduardo Bahiana ganhou espaço dentro da festa literária e pôde dialogar com escritores, educadores e leitores.

A voz dos estudantes

A importância de oferecer aos jovens não apenas livros, mas também espaços nos quais possam produzir e compartilhar suas próprias narrativas ganhou uma representação especial durante o encontro.

O estudante Francis Suzart, do Colégio Eduardo Bahiana, apresentou o poema Garoto Cor Castanho, escrito a partir de sua própria vivência e dedicado, segundo ele, às pessoas apaixonadas que ainda encontram no preconceito uma barreira para expressar livremente seus afetos.

“É um texto para os apaixonados que sonham, um dia, poder expressar essa paixão da melhor maneira, em meio a uma sociedade tão julgadora e preconceituosa como a que vivemos”, explica Francis.

Garoto Cor Castanho

Francis Suzart

Ó meu garoto, tu que és tão belo
lindo como o sol, mas não é tão velho
olha em meus olhos e faz um mistério
como um nobre em um cemitério

Fala comigo e diz que me ama
Tão infinito como minha chama
Seja meu rio e minha montanha
Sem muito aflito e muita façanha

Sou teu garoto agora e pra sempre
Sou de tua posse nos olhos e na mente
No meu cabelo, enrolado estará
no coração em eterno vai bombear

Nosso beijo guardado na memória
como um grito de luta e vitória
que um dia no livro de história
eu vi e lembrei de você

Meu amor, finalmente é a hora
De nosso amor e toda nossa glória
e também toda a trajetória
que faremos até o fim

Eu te amo, nunca se esqueça
um amor sem nenhuma doença
e também sem qualquer violência
Hoje e sempre escolho a ti

Para todos aqueles que não sabem amar pouco
E para ti, Pedro.

A presença da produção literária de um estudante ao lado das obras doadas sintetiza o propósito da parceria: fazer da leitura não apenas uma experiência de acesso ao livro, mas também uma possibilidade de reconhecimento, criação e expressão.

Os exemplares que estiveram durante a Flipelô nas mãos de pessoas escritoras e leitoras seguem agora para as estantes de uma escola pública. Ali, poderão circular entre estudantes, provocar conversas e, sobretudo, ajudar a construir um espaço em que jovens também possam se reconhecer como pessoas autoras de suas próprias histórias.

Sobre o Clube de Leitura LGBTI+ Independente da Bahia

O Clube de Leitura LGBTI+ Independente da Bahia é um coletivo dedicado à promoção da leitura de obras de pessoas autoras LGBTI+ que produzem literatura independente na Bahia. Integra o Clube de Leitura LGBTI+ Nacional, filiado à Aliança Nacional LGBTI+.

A leitura e o debate das obras promovem pertencimento e acolhimento em um ambiente seguro e compartilhado por pessoas LGBTI+, fortalecendo espaços de escuta, reflexão e troca.

Além dos encontros de leitura, o coletivo participa de feiras literárias e realiza atividades culturais envolvendo literatura, exposições, teatro e cinema. Atualmente, desenvolve a primeira coletânea baiana de contos de fadas LGBT para as infâncias. Os encontros acontecem, em geral, no último sábado de cada mês, no Museu de Arte da Bahia (MAB).

Mais informações sobre as atividades do Clube estão disponíveis no Instagram @clubedeleituralgbtdabahia.

Gabriela Kopinits é jornalista, professora e escritora, autora de O que não foi combinado e Contos de Fadas Desobedientes. É secretária executiva do Clube de Leitura LGBTI+ Nacional, integrante do Clube de Leitura LGBTI+ Independente da Bahia e membro da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – Coordenadoria Bahia (AJEB-BA).

Foto: João Mota

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